sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Autopsicografia 
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
F e r n a n d o   P e s s o a .   A u t o p s i c o g r a f i a.  I n:
Obra completa. Porto: Lello & Irmãos, 1975, p. 255

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