Toda criança precisa que leiam histórias para ela e quando ela aprender a ler é importante que ela leia alguns clássicos: Como O Pequeno Príncipe de Antoine de Saint-Exupery, A volta ao Mundo em 80 dias de Júlio Verne e entre outros A fantástica fabrica de chocolates de Roald Dahl .
O livro é um objeto mágico, muito maior por dentro do que por fora... cabe tudo dentro dele: castelos, florestas, cidades inteiras.
Tatiana Belinky
sábado, 19 de novembro de 2011
sábado, 12 de novembro de 2011
Parafraseando
Jornal "A Cidade"
- JOSÉ
- Carlos Drummond de Andrade
- E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama protesta,
e agora, José?
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?
E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro, sua incoerência,
seu ódio - e agora?
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!
Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, pra onde?
- Um novo José
- Josias de Souza
- Calma José.
- A festa não começou,
- a luz não acendeu,
- a noite não esquentou
- O Malan não amoleceu, mas se voltar a pergunta:
- e agora José
- Diga: ora Drummond,
- agora Camdessus.
- Continua sem mulher,
- continua sem discurso,
- continua sem carinho, ainda não pode beber,
- ainda não pode fumar,cuspir ainda não pode,
- a noite é fria,
- O dia ainda não veio,
- o riso ainda não veio,
- não veio ainda a utopia,
- o Malan tem miopia,
- mas nem tudo acabou,
- nem tudo fugiu,
- nem tudo mofou.
- Se voltar a pergunta:
- E agora José?
- Diga: ora Drummond, Agora FMI.
- Se você gritasse,
- se você gemesse,
- se você dormisse,
- se você cansasse,
- se você morresse...
- O Malan nada faria,
- mas já há quem faça.
- Ainda só, no escuro,
- qual bicho do mato, ainda sem teogonia,
- ainda sem parede nua, pra se encostar,
- ainda sem cavalo preto,
- que fuja a galope,
- você ainda marcha José!
- Se voltar a pergunta:
- José para onde?
- Diga: ora Drummond,
- Por que tanta dúvida?
- Elementar, elementar,
- sigo pra Washington
- e, por favor, poeta,
- não me chame de José.
- Me chame Joseph.
Parnasianismo
XXXI
Longe de ti, se escuto, porventura,
Teu nome, que uma boca indiferente
Entre outros nomes de mulher murmura,
Sobe-me o pranto aos olhos, de repente...
Tal aquele, que, mísero, a tortura
Sofre de amargo exílio, e tristemente
A linguagem natal, maviosa e pura,
Ouve falada por estranha gente...
Porque teu nome é para mim o nome
De uma pátria distante e idolatrada,
Cuja saudade ardente me consome:
E ouvi-lo é ver a eterna primavera
E a eterna luz da terra abençoada,
Onde, entre flores, teu amor me espera.
Olavo Bilac
O CARRO DA MISÉRIA - XIV
vou-me embora vou-me embora
vou-me embora pra Belém
vou colhêr cravos e rosas
volto a semana que vem
vou-me embora paz da terra
paz da terra repartida
uns tem terra muita terra
outros nem pra uma dormida
não tenho onde cair morto
fiz gorar a inteligência
vou reentrar no meu povo
reprincipiar minha ciência
vou-me embora vou-me embora
volto a semana que vem
quando eu voltar minha terra
será dela ou de ninguem.
(mário de andrade)
Pueblito (Morro da favela II) Tarsilla do Amaral 1945
REVELAÇÃO DO SUBÚRBIO
Quando vou para Minas, gosto de ficar de pé, contra a vidraça do carro,
vendo o subúrbio passar.
O subúrbio todo se condensa para ser visto depressa,
com medo de não repararmos suficientemente
em suas luzes que mal têm tempo de brilhar.
A noite come o subúrbio e logo o devolve,
ele reage, luta, se esforça,
até que vem o campo onde pela manhã repontam laranjais
e à noite só existe a tristeza do Brasil.”
REVELAÇÃO DO SUBÚRBIO
Quando vou para Minas, gosto de ficar de pé, contra a vidraça do carro,
vendo o subúrbio passar.
O subúrbio todo se condensa para ser visto depressa,
com medo de não repararmos suficientemente
em suas luzes que mal têm tempo de brilhar.
A noite come o subúrbio e logo o devolve,
ele reage, luta, se esforça,
até que vem o campo onde pela manhã repontam laranjais
e à noite só existe a tristeza do Brasil.”
Carlos Drummond de Andrade
Metáfora
Gilberto Gil
Uma lata existe para conter algo
Mas quando o poeta diz: "Lata"
Pode estar querendo dizer o incontível
Uma meta existe para ser um alvo
Mas quando o poeta diz: "Meta"
Pode estar querendo dizer o inatingível
Por isso, não se meta a exigir do poeta
Que determine o conteúdo em sua lata
Na lata do poeta tudonada cabe
Pois ao poeta cabe fazer
Com que na lata venha caber
O incabível
Deixe a meta do poeta, não discuta
Deixe a sua meta fora da disputa
Meta dentro e fora, lata absoluta
Deixe-a simplesmente metáfora
Mas quando o poeta diz: "Lata"
Pode estar querendo dizer o incontível
Uma meta existe para ser um alvo
Mas quando o poeta diz: "Meta"
Pode estar querendo dizer o inatingível
Por isso, não se meta a exigir do poeta
Que determine o conteúdo em sua lata
Na lata do poeta tudonada cabe
Pois ao poeta cabe fazer
Com que na lata venha caber
O incabível
Deixe a meta do poeta, não discuta
Deixe a sua meta fora da disputa
Meta dentro e fora, lata absoluta
Deixe-a simplesmente metáfora
Iracema voou
Para a América
Leva roupa de lã
E anda lépida
Vê um filme de quando em vez
Não domina o idioma inglês
Lava chão numa casa de chá
Tem saído ao luar
Com um mímico
Ambiciona estudar
Canto lírico
Não dá mole pra polícia
Se puder, vai ficando por lá
Tem saudade do Ceará
Mas não muita
Uns dias, afoita
Me liga a cobrar
É Iracema da América
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