sábado, 12 de novembro de 2011

Parafraseando

                                                                           Jornal "A Cidade"

  • JOSÉ
  •  Carlos Drummond de Andrade

  • E agora, José?
    A festa acabou,
    a luz apagou,
    o povo sumiu,
    a noite esfriou,
    e agora, José?
    e agora, você?
    você que é sem nome,
    que zomba dos outros,
    você que faz versos,
    que ama protesta,
    e agora, José?

    Está sem mulher,
    está sem discurso,
    está sem carinho,
    já não pode beber,
    já não pode fumar,
    cuspir já não pode,
    a noite esfriou,
    o dia não veio,
    o bonde não veio,
    o riso não veio,
    não veio a utopia
    e tudo acabou
    e tudo fugiu
    e tudo mofou,
    e agora, José?

    E agora, José?
    Sua doce palavra,
    seu instante de febre,
    sua gula e jejum,
    sua biblioteca,
    sua lavra de ouro,

    seu terno de vidro, sua incoerência,
    seu ódio - e agora?

    Com a chave na mão
    quer abrir a porta,
    não existe porta;
    quer morrer no mar,
    mas o mar secou;
    quer ir para Minas,
    Minas não há mais.
    José, e agora?

    Se você gritasse,
    se você gemesse,
    se você tocasse
    a valsa vienense,
    se você dormisse,
    se você cansasse,
    se você morresse…
    Mas você não morre,
    você é duro, José!

    Sozinho no escuro
    qual bicho-do-mato,
    sem teogonia,
    sem parede nua
    para se encostar,
    sem cavalo preto
    que fuja a galope,
    você marcha, José!
    José, pra onde?



    • Um novo José
    • Josias de Souza
    • Calma José.
    • A festa não começou,
    • a luz não acendeu,
    • a noite não esquentou
    • O Malan não amoleceu, mas se voltar a pergunta:
    • e agora José
    • Diga: ora Drummond,
    • agora Camdessus.
    • Continua sem mulher,
    • continua sem discurso,
    • continua sem carinho, ainda não pode beber,
    • ainda não pode fumar,cuspir ainda não pode,
    • a noite é fria,
    • O dia ainda não veio,
    • o riso ainda não veio,
    • não veio ainda a utopia,
    • o Malan tem miopia,
    • mas nem tudo acabou,
    • nem tudo fugiu,
    • nem tudo mofou.
    • Se voltar a pergunta:
    • E agora José?
    • Diga: ora Drummond, Agora FMI.
    • Se você gritasse,
    • se você gemesse,
    • se você dormisse,
    • se você cansasse,
    • se você morresse...
    • O Malan nada faria,
    • mas já há quem faça.
    • Ainda só, no escuro,
    • qual bicho do mato, ainda sem teogonia,
    • ainda sem parede nua, pra se encostar,
    • ainda sem cavalo preto,
    • que fuja a galope,
    • você ainda marcha José!
    • Se voltar a pergunta:
    • José para onde?
    • Diga: ora Drummond,
    • Por que tanta dúvida?
    • Elementar, elementar,
    • sigo pra Washington
    • e, por favor, poeta,
    • não me chame de José.
    • Me chame Joseph.


Nenhum comentário:

Postar um comentário